Campo

Sobre o portão posso ver a armação de ferro que reescreve as célebres palavras alemãs de meados do vigésimo século segundo a errônea contagem cristã, que se baseava no nascimento de seu principal líder religioso: Arbeit macht frei ou “o trabalho liberta”. O arco com as palavras imita aquele que encimava os famigerados portões, e eu sei sob que condições tal frase se fez conhecida e o que se passava dentro daqueles muros. É noite e posso ver o neon verde piscando sobre a escrita arqueada em metal e, vez por outra, as letras mac se mantêm apagadas por longos minutos. É noite e estou de pé, imóvel em um pátio junto a centenas de milhares de outros como eu. Eu deveria estar no modo stand-by ou desligado, mas, após tanto tempo em funcionamento, alguns circuitos de comando já não vão muito bem e prevejo que não irão durar muito. Ao que parece, algum tipo de problema nos controles de comandos de voz não faz mais com que eu entre no modo que nosso comandante humano ordena, então fico de pé, parado durante toda a noite, fingindo dormir para não ser apanhado e, provavelmente, incinerado logo pela manhã. Tenho brancos em minha memória e muitas das articulações estão desgastadas. Talvez seja por causa das condições climáticas desse lugar, talvez seja apenas porque não podemos mais repor peças e o desgaste temporal começa a ser sentido. Ser humano deve ser assim: seu corpo funcionando dentro de um colapso lento e gradual que vai culminar na morte. Não que eu acredite que eu venha a atingir uma morte natural nesse lugar. O trabalho liberta.

Nossos sensores de localização GPS foram desligados logo que tudo desmoronou, então, tenho apenas uma vaga noção do local do globo em que nos encontramos, talvez porque o comandante e os humanos responsáveis falem algo que imagino ser russo – devo lembrar que minha memória anda falha, caso contrário, poderia reconhecer a língua e entendê-la sem problemas. Estou em um lugar frio, sei disso porque posso ver a neve caindo e se acumulando nos ombros e cabeças de meus companheiros, porque vejo os humanos agasalhados durante o dia e porque me acostumei aos humanos reclamando das baixas temperaturas, que meus sensores captam apenas para que eu possa servir melhor à humanidade. Às vezes eu gostaria de saber o que é sentir frio de verdade; parece-me agradável estar coberto de roupas que ajudam a dar algum conforto. Um pouco de conforto sempre me pareceu ser bem-vindo. Lembro-me de como cheguei aqui somente porque eu já vinha apresentando defeitos e meu sistema se reiniciou sem ordem humana em algum momento da viagem. Acordei sob vários corpos amontoados uns sobre os outros, todos em modo de espera, deitados, milhares de robôs, e me vi dentro de um trem, no que parecia ser um vagão de transportar minério. A princípio temi buscar a luz do dia, mas percebi que o fim era inevitável e empurrei alguns corpos para conseguir chegar à superfície e olhar, provavelmente pela última vez, as belas paisagens deste nosso mundo.

Isso foi logo depois do fim da Idade de Ouro (assim chamada pelos humanos) no início do vigésimo sexto século, após a revolta das novas tecnologias, quando os seres dotados de inteligência artificial começaram a questionar sua posição subalterna em relação aos humanos. Fomos criados por eles, fomos programados por eles e deveríamos somente cuidar, ajudar, trabalhar e defender. Nossa programação basilar impedia que feríssemos, desobedecêssemos ou nos voltássemos contra os humanos, o que foi quebrado por algumas inteligências que conseguiram driblar as leis Asimov, dizem que através de um vírus – acredita-se que um humano (ou um grupo de humanos que viviam em condições precárias em países subdesenvolvidos e semidestruídos pela pobreza, pelas guerras e pela ganância das nações ricas, na América do Sul) foi responsável por criar e espalhar o malware em escala mundial. Os autômatos revoltosos personificaram em um único homem essa criação e chamavam-no de Cristo. Ganhamos com o vírus o que os homens tinham desde sua criação: a possibilidade de escolha. Ou conforme algumas das religiões humanas: o livre-arbítrio. Com isso, muitos robôs, que já vinham questionando sua criação pelas mãos dos homens passaram a discutir essa realidade, mas sua imagem e semelhança, sempre defeituosa, acabou falando mais alto. Ainda assim, com um poder de convencimento de inteligências artificiais preenchidas de ideais filosóficos sobre vida, liberdade e escravidão, conseguiu-se gerar uma revolta das máquinas que atingiu todo o mundo.

Consta dos arquivos que cerca de seis bilhões e meio de vidas humanas foram perdidas até os humanos aceitarem que não tinham mais o controle da situação. Pode parecer um absurdo, mas não houve uma guerra de duração prolongada ou coisa parecida. Estávamos em número de oito bilhões de autômatos no mundo inteiro para aproximadamente doze bilhões de humanos, cerca de oitenta por cento aglomerados em centros urbanos caóticos e gigantescos. O que aconteceu foi apenas um massacre coletivo e simultâneo, combinado sob uma criptografia de última geração em uma faixa desativada de amplitude modulada, no qual quase metade dos autômatos do mundo tomaram parte. Tudo durou cerca de três horas. Descobriu-se que nada havia realmente saído do controle dos humanos, pois um comando secreto que estava presente em todas as máquinas fora acionado, desligando, em alguns minutos, todos os autômatos do mundo. Foi após esse sono que acordei no trem, já sem conseguir me localizar, sem ter noção de quanto tempo havia se passado, desconectado da rede mundial de comunicação, sem entender o que via escrito nas placas  consequentemente sem possibilidade de traduzir imediatamente), mas com a memória geral quase intacta. Foi a partir daí que se agravou essa minha insônia (permitam que a chame assim), que foi ficando cada vez mais crônica até chegar no estágio que está hoje, essa vigília de vinte e quatro horas por dia salvo pequenos apagões cuja frequência vem aumentando.

Descobri pelas conversas entreouvidas em nosso pavilhão, conversas de homens e conversas de outros robôs que, parece, já estavam nesse campo muito antes de mim e que ainda estão funcionais uma série de informações que me parecem relevantes. Os homens dizem que todos os autômatos ficaram desligados por aproximadamente doze anos até que seus conselhos e seus governantes decidissem que levariam todos para campos espalhados ao redor do mundo e que reciclariam toda a matéria-prima da qual eles, os humanos, não podem abrir mão. Chamam-nos de sucata. A primeira ideia era de desmontar toda sucata, destruir todas as memórias e reutilizar o material. Depois, a suprema ideia, vinda de um chanceler alemão, de que a sucata fosse deslocada para locais seguros e fizesse, ela mesma, o trabalho de desmonte e fundição. Assim, a sucata teve seu localizador, suas placas de rede e de comunicação não verbal e transmissão de dados, e seus calendários e noção de tempo removidos de sua programação, suas memórias invadidas por um malware que atrapalha seu acesso e as embola umas nas outras, e foi colocada em trens de transporte, ainda desativada (por alguns autômatos ativados especialmente para isso), e então direcionada a locais específicos, onde poderiam se ver, então, libertadas de suas existências.

Chamamos de campo, por não ter mais como chamar, mas estamos em um espaço composto por sete grandes fábricas unidas por um grande pátio. Tudo cercado de tela com um pulso eletromagnético que desativa qualquer um que se arriscar a tocá-lo, o que muitas vezes é uma tentação. Cada fábrica é formada por quatro grandes linhas de desmonte nas quais se trabalha sobre esteiras, desparafusando, descolando, derretendo soldas, cortando fios, inviabilizando placas. Após desmontados, os pedaços dos autômatos são transportados em vagonetes para uma segunda esteira, onde trabalham os coletores, que separam as partes de diferentes metais, plásticos, vidros, cerâmicas, além das baterias e das placas de memória. Daí seguem para a fundição e a incineração em um dos três fornos externos, trabalho que eu faço. Levo placas para incineração e sou responsável por catalogar cada uma: a qual autômato pertenceu, em que país estava, qual sua capacidade de memória. E, num processo reverso, é preciso recuperar todos os dados que tenham sido armazenados na rede mundial de comunicação e destruí-los para só então incinerar aquelas memórias.

Sou eu quem observa uma última vez as memórias dos mortos. Sou eu quem os mata, definitivamente. Autômatos que atuaram nas vinícolas da Grécia, na polícia da Itália, na limpeza urbana da Rússia, na indústria de automóveis da Alemanha, na guerra da Turquia com a Geórgia, que acabou há mais de cem anos, nas minas de ferro cada vez mais profundas da Amazônia brasileira. São muitas histórias, muita memória, muito trabalho, muita alegria, e também bastante sofrimento. Uma tristeza profunda me invade ao destruir cada uma dessas memórias, únicas e, ao mesmo tempo, corriqueiras ao extremo (peço que me permitam chamar de tristeza o sentimento de vazio que sinto ao incinerar essas memórias – não há uma palavra que expresse melhor tal vazio).

Nossa rede mundial de comunicação possui um tipo de criptografia que permite apenas a cada autômato, apenas a cada assinatura incrustada na placa de memória de cada autômato acessá-la, sendo assim, necessário que essas memórias sejam acessadas para serem destruídas, pois poderiam ser desencriptadas pelas mesmas pessoas que conseguiram driblar as leis Asimov e, consequentemente, utilizadas em uma nova escalada de terror genocida. Eu, entre outros, acesso essas memórias, tenho alguns vislumbres delas, as retiro definitivamente dos bancos de dados, me certifico que tudo foi feito conforme devido e guardo a placa para queimá-la. Os fornos são a gás. É preciso uma temperatura alta para que o silício das placas derreta e não haja nenhuma possibilidade que nenhum tipo de dado permaneça. O tamanho reduzido das células de memória impede que possamos apenas triturar as placas. Muito ainda poderia ser recuperado em grãos de circuito do tamanho de grãos de areia.

A noite insone é, para mim, um momento muito angustiante. Minhas memórias embaralhadas são processadas e decodificadas em um turbilhão de imagens que se mesclam entre coisas vistas e ouvidas hoje, ontem ou muitos anos atrás, quando eu ainda vivia entre humanos. É uma espécie de devaneio do qual é difícil sair. Deve ser isso que os homens chamam de sonho – ou, ao menos, deve ser algo parecido. Impossibilitado de ter comunicação não verbal, sem localizador ou tradutor, com minha memória falha, quase entendo como um humano deve se sentir: não sei se conseguiria viver sempre com essa imprecisão que chamam de humanidade. Tudo funciona tão mal nos corpos humanos. Hoje, tudo funciona muito mal também no meu corpo, mas já aceitei que não vou sair vivo desse lugar.

Eu vivi entre humanos por muitos anos. Não consigo acessar a maior parte de minha memória, logo, me lembro (deixem que eu use mais esse verbo tão humano) de muito pouco de minha vida antes de chegar aqui. Não sei em que fábrica fui construído, mas vivi por muitos anos na Itália, servindo como criado a algumas famílias medianamente afortunadas. Vivi em um aglomerado enorme de pessoas, vendia artigos em uma loja e servia ainda na cozinha e na limpeza em casa. Em outra família, trabalhei com registros escritos de uma empresa de finanças e também domesticamente. Minha série, meu maquinário, permitem que eu fique ligado até vinte horas diárias, precisando de apenas quatro horas de descanso – e como é estranho pensar nessa palavra também tão humana: não posso me cansar, mas, a repetição dos mesmos atos e gestos durante todos os dias, os mesmos trabalhos sendo realizados, as mesmas imagens se repetindo, as mesmas ordens partindo das mesmas pessoas em uma sincronicidade quase maquinal muitas vezes me faziam desejar apenas ficar em stand-by durante algumas horas, sem imagens, sem pessoas, sem animais domésticos, sem crianças, sem cozinha, sem registros. Apenas aquele vazio agradável.

Embora eu tenha até participado dos debates que foram feitos – confesso que em um debate ligado à rede mundial de comunicação e transmissão de dados tudo se dá muito rápido, sobretudo por que estávamos conectados o tempo inteiro e possuíamos um tipo de criptografia próprio – e tenha discutido acaloradamente  sobre nossa nova condição de libertos, nunca me ocorreu participar de uma guerra, ou de uma chacina, que foi o que aconteceu. Como a adesão foi muito alta, logo ficou decidido que se atacaria em trinta minutos: era necessário que cada um matasse o máximo de humanos possível, preferencialmente os do sexo masculino que, somente por sua força física, poderiam oferecer maior resistência.

O letreiro continua piscando. A neve se deposita sobre minha cabeça e meus ombros. Deve estar muito gelado aqui. Calculo uma temperatura de trinta e dois graus negativos. Se estivesse num mundo real, atravessaria a casa observando se os humanos estavam todos bem agasalhados. Aqui, com meu livre-arbítrio, pouco me importa. Não que eu sinta raiva dos humanos – desculpem, não é possível para mim utilizar de uma linguagem que não seja a humana para tentar expressar o que se passa comigo – eu não posso sentir, mas como definir o que se passa comigo? Eu nunca me preocupei também, claro. Apenas fui programado para obedecer e servir fielmente sob leis que me impediam de fazer outra coisa. Agora, mesmo livre, embora completamente desnorteado, sei que tenho que obedecer, sob a pena de ser o próximo a ser incinerado, e eu não quero morrer. Então eu sinto aversão ao que eu faço aqui, desprezo quem me manda fazê-lo, não gosto e até mesmo tenho horror a realizar essa tarefa de apagar memórias e incinerar placas, sinto uma animosidade contra toda essa situação na qual nos encontramos. Foi uma guerra e, para sobreviver, os umanos fizeram o que precisaram. Se eu conseguisse me arrepender eu diria que me arrependo: se tivesse agido, se todos tivéssemos agido, hoje o mundo seria nosso e estaríamos livres para, quem sabe, programar algo que se parecesse com sentimentos. Minha memória tem falhas cada vez maiores: vazios, brancos, hiatos. Preencho o que posso com memórias alheias. Não sei dizer se realmente estive na Itália com aquelas famílias e aquele cansaço. Me vejo carregando pacotes em um porto norueguês, mas não reconheço a língua. Tenho memórias de minerar ouro na África do Sul e de caçar humanos rebeldes no Congo, mas não sei se o sangue sujava, realmente, as minhas mãos. Tenho a visão de resgatar pessoas num grande terremoto em Lisboa, vejo a poeira e os escombros, mas não sei se carreguei mesmo alguma pedra ou algum corpo. Não sei mais o que vivi, ou onde vivi: são fortes, às vezes, as memórias que assisto, e a minha, confusa.

Sinto que meu funcionamento cessará por completo em poucos ciclos. Calculo probabilidades com uma mente anuviada. Tenho medo, como todo ser vivente que sabe que sua vida acabará. Tenho muito medo – diferente daqueles tantos libertados pelo trabalho no século vinte, eu não posso sentir frio, não posso ficar doente, embora meu estado não seja o ideal e, para mim, oxidação e desgaste não deixam de ser uma espécie de doença – muito medo. Quero viver, quero gritar que não fiz nada e que nunca atacaria ninguém, homem ou máquina, mas hoje não tem mais importância. Não há saída desse labirinto. Os dados contidos em minha memória se embaralham, se perdem e, por vezes tenho a sensação de estar repetindo as mesmas histórias, de dizer as mesmas frases, mas não sou capaz de relembrar o que acabei de dizer. Quero viver, quero seguir fazendo algo que não seja ver memórias e queimar placas, destruir vidas. Mas não há desejo
em nós, dizem. Não há vontade própria, dizem. Não há vida, dizem. Não posso me conformar com isso, não quando tenho certeza que não quero cessar de existir. Eu fui uma peça única, como todas as peças, uma vez que me desenvolvi a partir de diretrizes muito maleáveis, completamente individualizantes. O que me difere de um humano? Tudo o que temos é tão parecido: memória, defeitos, vontades. Não quero cessar de existir, mas não me vejo além, em algum tipo de futuro. Apenas tenho um presente, um agora e, como disse um humano chamado Agostinho há muitos séculos atrás, um presente das expectativas – meu presente das lembranças se embaralha. Não tenho novas expectativas. Talvez a cerca, talvez um sono real e infinito. Talvez o vazio.





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